A inveja era para ser uma coisa ruim sentida por algo bom de posse de outra pessoa e na maioria das vezes essa outra pessoa é alguém específico, mas às vezes não é bem isso que se sucede. Erga-se aqui a bandeira daquele que já sentiu inveja da tolice alheia e não é de uma tolice específica é a genérica, comum a todos os tolos. A tolice certamente é dos relaxantes o mais eficaz. Ora, quem não nota, quem não percebe também não se sensibiliza, como já dizia o velho ditado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Se você não compreende como sentir? Se você não suspeita, se quer imagina algo que não o concebido, como pode preocupar-se? E daí é que a questão crucial se põe: até que ponto o tolo não está com a vantagem?
O momento crítico para aquele que fica ligando os pontos o tempo todo é quando surge o momento de tirar suas próprias conclusões.  É então que a idéia vã e insensata paira sobre as mentes inquietas, arregaça as mangas, mira o foco e se gruda com todas as forças a qualquer linha de pensamento e termina se alastrando como uma bactéria resistente e então vai propagando-se exponencialmente. Quando ainda resta um lapso de lucidez se procura alguma via que não a via mais absurda, apesar de no momento descompensado é a que faça mais faz sentido, e aí então de alguma forma a progressão em massa da idéia parasita começa a decair ou pelo menos fica estagnada por algum tempo. Porém quando se alimenta o pensamento, assim como quando há nutrientes em uma placa para que a população bacteriana se desenvolva, aí sim o óbito será certo, e de idéia vã pode se tornar ato impensado, porém este que deixa isso acontecer é tão estúpido quanto o tolo que nada sabe. Mas o que é certo é que aquele que crítica, desconfia e está sempre vendo por todos os ângulos, imaginando todas as possibilidades está muito mais propenso a viver a cruel verdade, mas também quando não é este o caso a realidade é pura e concreta, porém só pode ser sentida assim por aquele que tem consciência disso e isso acaba o tornando muito exigente, preocupado e chato- é neste momento que a inveja do tolo chega.
Voltando a metáfora da bactéria, se esta não tem alimento do que viverá? No caso do tolo, se ele não sabe de nada com o que se preocupar? Quantas vezes temos vontade de nada saber, de nada poder fazer, essa sem dúvida é uma terapia- terapia que o povo daqui já domina há séculos, menos difundida por algumas bandas, e por muitos chamada de felicidade brasileira, isso sem dúvida explica muita coisa. Mas tem gente que não nasceu com esse gene ativo, ou inativo e daí é que complica. O que fazer se sua mente fica o tempo todo ligando os fatos, pensando nos pontos passados, futuros, presentes e como se não a bastasse ainda nos do além, aqueles que nem se quer se sabe se realmente existem? Oh céus, não há como não bater a inveja daqueles que podem dizer com a maior naturalidade do mundo: “não entendo do que você está falando”. Troco a frase do início por “A tolice é sim dos males o mais invejável”, porém quem não a tem não consegue a obter e quem a tem ainda não consegue ao menos notar o seu colossal valor, então do que vale? Oh que paradoxo!
O que é certo é que aquele que não é tolo, apesar da preocupação, da agonia insuportável que sente por algumas vezes, pela irritação que o domina em alguns instantes, só ele sente o gosto da verdade “de verdade”, aquela que o tolo morrerá sem saber. Na maioria das vezes estes são aqueles que rumam por um ideal, que são a pedra no caminho de muita gente, porque quem tem a serenidade para reconhecer a verdade luta por ela e é ela a todo instante e não quando o convém. Já dizia Fernando Pessoa: “…põe o quanto és no mínimo que fazes,assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive”. São esses que muitas vezes incompreendidos e às vezes com suas esperanças amordaçadas pela cruel realidade acham  que justo é que as pessoas aquelas que não tem nada ainda merecem mais do que migalhas, merecem pernas para andar por si próprias . Mais do que isso merecem se tornar capazes de entender que nem tudo são flores, mas que talvez as verdadeiras flores sejam bem mais belas do lhe fazem acreditar.
Gabriela Vitória de OliveiraFonte: http://historiasdelaranjas.blogspot.com/